26.2.09

Memoiren - Vorwort

de Heinrich Heine
übersetzt ins Portugiesische von Aleksander Sade Paterno


Com efeito, cara Senhora, eu procurei registrar os eventos de meu tempo dignos de atenção, tão verdadeira e fielmente quanto possível, à medida que estes tocavam a minha própria pessoa, como espectador ou como vítima. Entretanto, estes registros, aos quais auto-complacentemente concedo o título “Memórias”, tive novamente de destruí-los, quase que por metade, em parte por considerações familiares vexatórias, em parte também devido a escrúpulos religiosos. Desde então, tenho-me dado ao trabalho de preencher provisoriamente as lacunas que vão aparecendo, ainda que eu tema - deveres póstumos ou um tédio auto-destrutivo me obrigam - transmitir minhas Memórias antes de minha morte num novo auto-de-fé, e o que a seguir não chamar a atenção, talvez nunca mais venha a ser conhecido. Eu bem tenho cautela ao mencionar os amigos, a quem eu confio a proteção de meus manuscritos e a execução do meu último desejo com relação aos mesmos; eu não quero expô-los depois do fim de minha vida à impertinência de um público ocioso e com isso quebrar- lhes o voto de confiança. Uma tal infidelidade eu nunca poderia desculpar; publicar uma linha de um escritor, a qual ele mesmo não tenha definido para o grande público, é também um feito ilícito e imoral. Isso vale especialmente para cartas íntimas e pessoais. Quem as imprime ou edita, comete um crime, merece o desprezo.
Segundo estas confissões, cara Senhora, chegará facilmente à conclusão de que eu não lhe posso conceder a leitura de minhas memórias e correspondências, como a Senhora gostaria. Entretanto, como sempre fui um admirador de suas gentilezas, não lhe posso negar incondicionalmente um desejo, e, a fim de manifestar a minha boa vontade, quero satisfazer-lhe de outra maneira a sincera curiosidade, resultante de sua inocente cumplicidade em meu destino: Eu escrevi as seguintes folhas com esta intenção; e as notas biográficas, que para a Senhora têm algum interesse, achará aqui em abundância. O marcante e o significativo estão aqui honestamente compartilhados e a ação recíproca entre os acontecimentos externos e os resultados internos da alma evidencia-lhe a assinatura do meu ser e da minha essência. O véu cai d'alma e tu podes observá-la em tua bela nudez. Nela não há máculas, apenas marcas. Ah! E somente marcas deixadas pela mão dos amigos, não dos inimigos.
A noite está silenciosa. Só lá fora a chuva respinga sobre os telhados e o vento outonal chia melancólico. O pobre leito neste instante está quase alegremente discreto, e eu sento análgico numa grande poltrona. E então tua graciosa imagem entra, sem que a porta se mova, e tu te deitas sobre a almofada aos meus pés. Deita tua bela cabeça sobre meus joelhos e escuta, sem levantar os olhos. Eu quero te contar a lenda da minha vida. Quando às vezes pesadas gotas cairem-te sobre cachos, fica em silêncio; não será a chuva, que escorre pelo telhado. Não chores, apenas dá-me a mão, silenciosamente.