13.7.09

Será?

O pai de Borges
Folha de S. Paulo - 11/07/2009 -
Por Alan Pauls

Como todo mundo, Jorge Luis Borges (1899-1986) teve um pai e uma mãe. Dos dois, entretanto, apenas um - a mãe - ocupa um lugar na mitologia borgeana. Leonor Acevedo de Borges foi uma mãe de tomar em armas, afiada e despótica. Vigiou a carreira literária de seu filho com rigor. Proibiu Borges de ler Martín Fierro ("um livro que só é apropriado para sem-vergonhas"), promoveu a carreira dele, afugentou namoradas ameaçadoras, foi sua secretária, sua leitora em voz alta (quando Borges ficou cego), sua companheira de viagem. Borges, pai, publicou El Caudillo (Mansalva, 128 pp., 40 pesos – cerca de R$ 21) em 1921, quando seu filho tinha pouco mais de 20 anos, era vanguardista e só tinha dado a conhecer um punhado de versos de incendiado espírito bolchevique. O romance passou despercebido, mas funcionou como elo crucial na cadeia de transmissão entre pai e filho. Até o final de sua vida, o autor de Ficções confessava que um de seus projetos mais caros, que nunca realizou, era "revisar e talvez reescrever o romance de meu pai, El Caudillo, como ele me pediu há anos".